
Impostos na PJ médica: Fator R, Simples Nacional e o que muda com a Reforma 2027
Como médico PJ, você vai pagar entre 6% e 16,33% do seu faturamento em impostos — dependendo do regime tributário escolhido e de um único cálculo que a maioria dos médicos nunca ouviu falar pelo nome certo: o Fator R.
Para quem vem da pessoa física, onde o Imposto de Renda pode chegar a 27,5% sobre os honorários, esses números causam surpresa. Para quem ainda atua como autônomo e paga entre 20% e 30% de tributos sobre o que recebe, causam ainda mais. A diferença não é magia — é planejamento tributário, e entender como ele funciona é o primeiro passo para não deixar dinheiro na mesa.
Neste guia você vai encontrar: o que é o Fator R e como ele determina quanto você paga no Simples Nacional, quando o Lucro Presumido se torna mais vantajoso, um benefício chamado equiparação hospitalar que poucos contadores explicam para médicos, e o que muda concretamente com a Reforma Tributária de 2027.
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Os regimes tributários disponíveis para o médico PJ
Médico que abre CNPJ pode optar por três regimes: Simples Nacional, Lucro Presumido e Lucro Real. O Lucro Real exige contabilidade complexa e apuração sobre o lucro efetivo — faz sentido para grandes clínicas ou empresas com margens baixas e muitos custos dedutíveis, mas raramente é a escolha certa para médicos solo ou em sociedade simples.
Na prática, a disputa está entre Simples Nacional e Lucro Presumido. Qual vence depende do seu perfil — especificamente, de quanto você fatura e se consegue cumprir a regra do Fator R. É o que vamos destrinchar agora.
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Simples Nacional para médicos: o que é o Fator R
O Simples Nacional unifica vários tributos numa guia única mensal chamada DAS. Para médicos, o regime tem um detalhe que muda tudo: a atividade médica pode ser enquadrada no Anexo III (alíquota inicial de 6%) ou no Anexo V (alíquota inicial de 15,5%). Quem decide em qual anexo você fica é o Fator R.
A fórmula é direta:
Fator R = Folha de pagamento dos últimos 12 meses dividido pela Receita bruta dos últimos 12 meses
Quando o resultado é igual ou maior que 28%, a empresa entra no Anexo III. Quando fica abaixo de 28%, vai para o Anexo V. A diferença de alíquota inicial — 6% contra 15,5% — é enorme e define o regime mais vantajoso para a maioria dos médicos.
A tabela comparativa entre os dois anexos:
| Anexo III | Anexo V | |
|---|---|---|
| Alíquota inicial | 6% | 15,5% |
| Alíquota máxima | 33% | 30,5% |
| Exige Fator R ≥ 28% | Sim | Não |
| Faturamento anual limite | R$ 4,8 milhões | R$ 4,8 milhões |
O que entra na conta da "folha de pagamento" para calcular o Fator R: pró-labore pago ao sócio e salários de funcionários com registro. É por isso que o pró-labore declarado tem um papel estratégico que vai muito além de ser o "salário do médico".
O pró-labore como ferramenta, não como obrigação
Muitos médicos ouvem "pró-labore" e pensam em custo. Pensam errado. O pró-labore declarado é o mecanismo que mantém a empresa no Anexo III — o que na maioria dos casos representa a menor carga tributária possível no Simples Nacional.
Funciona assim: a contabilidade declara que a PJ pagou um pró-labore ao sócio-médico. Sobre esse valor incidem INSS (11%) e, quando aplicável, Imposto de Renda progressivo. Em troca, esse pró-labore entra no cálculo do Fator R, mantendo a empresa no Anexo III — e o INSS pago conta como contribuição previdenciária, construindo a aposentadoria do médico.
Um contador que não orienta o médico sobre o pró-labore estratégico está, na prática, deixando esse profissional pagar mais imposto do que precisa — e ainda sem contribuição para aposentadoria. É um dos erros que custam caro na contabilidade médica e que aparecem com frequência em quem chega até nós.
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Simulações práticas: Fator R no dia a dia
Números concretos explicam melhor que qualquer teoria.
Simulação 1 — Faturamento de R$ 12.000/mês
Para manter o Fator R acima de 28%, o pró-labore declarado precisa ser de pelo menos R$ 3.360 (28% de R$ 12.000).
| Tributo | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| DAS — Simples Nacional (Anexo III, ~6%) | 6% × R$ 12.000 | R$ 720,00 |
| INSS sobre pró-labore (11%) | 11% × R$ 3.360 | R$ 369,60 |
| IR sobre pró-labore | R$ 3.360 < R$ 5.000 — isento (tabela 2026) | R$ 0,00 |
| Total de impostos | R$ 1.089,60 | |
| Carga efetiva | ~9,1% |
Com a nova tabela progressiva do IR vigente em 2026, rendimentos tributáveis de até R$ 5.000 mensais estão isentos de Imposto de Renda. Como o pró-labore de R$ 3.360 fica abaixo desse teto, não há retenção de IR neste cenário.
Simulação 2 — Faturamento de R$ 20.000/mês
Pró-labore mínimo para Fator R ≥ 28%: R$ 5.600.
| Tributo | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| DAS — Simples Nacional (Anexo III, ~7,3%) | 7,3% × R$ 20.000 | R$ 1.460,00 |
| INSS sobre pró-labore (11%) | 11% × R$ 5.600 | R$ 616,00 |
| IR sobre pró-labore | Tabela progressiva sobre R$ 5.600 | ~R$ 231,00 |
| Total de impostos | R$ 2.307,00 | |
| Carga efetiva | ~11,53% |
À medida que o faturamento cresce, a alíquota do DAS no Simples Nacional sobe progressivamente — de 6% no início para até 33% na faixa máxima.
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Lucro Presumido: quando ele vence o Simples Nacional
O Lucro Presumido funciona de forma diferente: a Receita Federal "presume" que 32% do faturamento de uma empresa de serviços médicos é lucro, e tributa sobre essa base. O resultado são quatro componentes de tributo federal mais o ISS municipal:
| Tributo | Base | Alíquota | % sobre o faturamento |
|---|---|---|---|
| IRPJ | 32% do faturamento | 15% | 4,80% |
| CSLL | 32% do faturamento | 9% | 2,88% |
| PIS | Faturamento | 0,65% | 0,65% |
| COFINS | Faturamento | 3% | 3,00% |
| ISS | Faturamento | 2% a 5% (varia por município) | 2% a 5% |
| Total | 13,33% a 16,33% |
Não há Fator R, não há exigência de pró-labore mínimo, e a carga é previsível independente do faturamento. O ponto de inflexão costuma aparecer entre R$ 25.000 e R$ 40.000 de faturamento mensal: quando o médico não consegue sustentar o Fator R nesse patamar — ou quando as alíquotas do Simples Nacional sobem o suficiente para o Lucro Presumido empatar ou ganhar — vale fazer a simulação comparativa com seu contador.
Uma observação importante: no Lucro Presumido não há obrigação legal expressa de declarar pró-labore. Mas a ausência total de pró-labore pode chamar a atenção do fisco — existe o risco de a distribuição de lucros ser recaracterizada como pró-labore disfarçado, o que atrairia tributação previdenciária sobre os valores distribuídos. É uma escolha que existe, mas carrega risco fiscal.
Não existe resposta universal. O Lucro Presumido pode ser mais vantajoso ou mais caro, dependendo do ISS do seu município e do quanto a alíquota do Simples Nacional avançou na tabela progressiva. O que existe é uma conta que precisa ser feita todo ano, conforme o faturamento muda.
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Equiparação hospitalar: o benefício que reduz o IRPJ a 8%
Poucos contadores que não são especialistas em saúde falam sobre isso, e praticamente nenhum dos generalistas orienta o médico a respeito. Para quem está no Lucro Presumido, existe um enquadramento chamado equiparação hospitalar que pode reduzir a base de cálculo do IRPJ de 32% para 8% e da CSLL de 32% para 12%.
Na prática: em vez de pagar IRPJ sobre 32% do faturamento (o que resulta em 4,80% do total), a empresa tributa sobre 8% — o equivalente a 1,20% do faturamento. A economia é real e pode chegar a 70% nos componentes de IRPJ e CSLL.
Para ter direito à equiparação hospitalar, a empresa precisa ser uma sociedade empresária (não Sociedade Simples), prestar serviços com características de natureza hospitalar — como atendimento ambulatorial com recursos para realização de exames complementares, quimioterapia, radioterapia, litotripsia ou diálise — e atender às normas da ANVISA aplicáveis.
Médicos plantonistas em hospital ou clínica que abrem PJ para emitir nota para uma única tomadora geralmente não se enquadram. Mas para quem tem clínica própria com estrutura de atendimento mais completa, vale uma análise. É uma conversa que você deve ter com um contador especializado em saúde antes de definir o regime.
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Médico com vínculo CLT: como fica a PJ?
Uma situação muito comum: o médico tem emprego fixo em hospital ou prefeitura via CLT e abre uma PJ à parte para os plantões adicionais ou consultório. A dúvida que aparece sempre é sobre o INSS.
A resposta direta: se o vínculo CLT já recolhe INSS sobre o salário e você já atingiu o teto contributivo — que em 2026 é de R$ 8.475,55, com contribuição máxima de aproximadamente R$ 988 por mês — não é necessário recolher INSS sobre o pró-labore da PJ. O teto do INSS é pessoal, não por vínculo.
Para aproveitar isso, você precisa apresentar os contracheques do emprego CLT à sua contabilidade, que vai registrar a dispensa do recolhimento. Mesmo dispensado do INSS na PJ, o DAS segue sendo recolhido normalmente sobre o faturamento da empresa, e o Imposto de Renda incide sobre o pró-labore quando aplicável.
Essa configuração costuma ser bastante eficiente: você mantém os direitos previdenciários pelo CLT e paga tributos menores na PJ por não precisar declarar pró-labore apenas para cumprir o Fator R — porque o INSS já está garantido pelo vínculo.
Um ponto importante que poucos contadores antecipam: como o médico CLT já tem uma renda tributável na pessoa física, o pró-labore da PJ entra como renda adicional na declaração anual do IR. Dependendo do valor total, isso costuma gerar uma correção (imposto a pagar) na declaração de ajuste anual — algo para planejar com antecedência e não ser pego de surpresa no ano seguinte.
Vale lembrar: o MEI não é uma opção para médicos. A atividade médica é expressamente vedada no regime do microempreendedor individual. As opções são Sociedade Limitada Unipessoal (SLU), LTDA ou Sociedade Simples — cada uma com implicações distintas. Se quiser entender por que médico não pode ser MEI e quais são as alternativas, temos um guia completo sobre o tema.
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O que muda com a Reforma Tributária 2027
Dois pontos da Reforma afetam diretamente o médico PJ. O primeiro é relevante para poucos; o segundo é para quase todos.
Tributação de dividendos acima de R$ 50.000/mês. A partir de janeiro de 2026, distribuições de lucros e dividendos de uma PJ para uma pessoa física que excedam R$ 50.000 mensais passam a ter retenção de 10% de IRRF sobre o total distribuído naquele mês. Para o médico plantonista que retira entre R$ 5.000 e R$ 30.000 por mês da PJ — o perfil mais comum na base da Allmed — essa mudança não gera impacto direto. Para quem distribui acima desse teto, vale conversar com o contador sobre estruturas como holding, onde a distribuição de uma PJ para outra não sofre a mesma retenção.
IBS e CBS para o setor de saúde. Os novos tributos de consumo que chegam com a Reforma (IBS e CBS, substitutos do PIS, COFINS, ICMS e ISS) têm uma redução de 60% das alíquotas para o setor de saúde, garantida no Anexo X da LC 214/2025. Em 2026, esses tributos aparecem nas notas fiscais com alíquotas simbólicas enquanto a transição ocorre — sem aumento real de carga. A mudança efetiva de impacto no bolso acontece ao longo do período de transição que vai até 2033.
A mensagem prática: para a maioria dos médicos PJ, 2026 não traz aumento de carga tributária. Mas é o momento de revisar a estratégia de distribuição de lucros com seu contador, especialmente se você tem faturamento crescente.
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Perguntas frequentes
Médico PJ paga quanto de imposto por mês?
Entre 6% e 16,33% do faturamento, dependendo do regime tributário. No Simples Nacional com Fator R ≥ 28%, a alíquota começa em 6% (Anexo III). No Lucro Presumido, a carga total fica entre 13,33% e 16,33%, variando conforme a alíquota de ISS do município. Comparando com a pessoa física — onde o IR pode chegar a 27,5% sobre os honorários — a diferença é substancial.
O que é o Fator R no Simples Nacional?
É a razão entre a folha de pagamento dos últimos 12 meses (pró-labore + salários de funcionários) e a receita bruta do mesmo período. Quando o resultado fica igual ou acima de 28%, a empresa médica se enquadra no Anexo III, com alíquota inicial de 6%. Quando cai abaixo, vai para o Anexo V, com alíquota inicial de 15,5%. O pró-labore declarado é o principal instrumento para manter o Fator R dentro da faixa desejada.
Quando o Lucro Presumido é melhor que o Simples Nacional para médicos?
Geralmente quando o médico começa a faturar entre R$ 25.000 e R$ 40.000 de faturamento mensal, mas a comparação precisa ser feita caso a caso com simulação real.
A Reforma Tributária 2027 vai aumentar o imposto do médico PJ?
Para a maioria dos médicos plantonistas, não. A tributação de dividendos com 10% de IRRF afeta quem distribui acima de R$ 50.000 mensais de uma mesma empresa para pessoa física — um patamar que não é o perfil típico. A nova tributação de consumo (IBS/CBS) tem redução de 60% para o setor de saúde, sem aumento real de carga em 2026. Quem precisa ficar atento são os médicos com faturamentos mais altos e estratégia de maximização de distribuição de dividendos.
Médico com CLT precisa pagar INSS na PJ?
Não necessariamente. Se a contribuição pelo vínculo CLT já atingir o teto do INSS — R$ 8.475,55 em 2026 — o recolhimento de INSS sobre o pró-labore da PJ fica dispensado. É preciso apresentar os comprovantes de recolhimento do CLT à contabilidade da PJ para registrar a dispensa. O DAS do Simples Nacional continua sendo recolhido normalmente sobre o faturamento da empresa.
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Conclusão
Para o médico plantonista ou recém-formado abrindo o primeiro CNPJ, o Simples Nacional com Fator R cumprido é o ponto de partida mais eficiente: alíquota que começa em 6%, contribuição previdenciária garantida pelo pró-labore, e uma única guia de pagamento por mês. Para quem tem CNPJ médico aberto e faturamento crescendo acima de R$ 25.000, vale uma simulação comparativa com o Lucro Presumido — especialmente se o Fator R estiver difícil de sustentar.
O que muda em 2026 não é, para a maioria dos médicos, um aumento de carga. É uma oportunidade de revisar a estratégia de distribuição e garantir que a estrutura tributária ainda é a mais eficiente para o momento atual da carreira.
Na Allmed, fazemos essa simulação como parte do processo de abertura — sem honorário de abertura, com certificado digital incluso, e com acompanhamento de quem conhece o perfil do médico plantonista. Se quiser entender qual regime faz mais sentido para o seu caso, fale com a gente.